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Eu e meus quatro rins

András Both é embaixador do Programa Nacional do Rim na Hungria

Todo mundo na Hungria conhece András Both, ou pelo menos já ouviu sua voz. Ele é o porta-voz do maior canal privado de televisão na Hungria e um grande ator. Mas muitas pessoas talvez não saibam que também é embaixador do Programa Nacional do Rim no país. Após submeter-se à diálise e dois transplantes, András Both se disponibilizou para compartilhar sua experiência com todos.

Paciente de transplante András Both após a cirurgia

Quando descobri algo errado

“Entre 1993 e 1994, eu soube que um dia teria dificuldades com meus rins. Lá atrás, minha doença renal surgiu de uma inflamação muito simples. Eu estava no trabalho quando percebi pela primeira vez que alguma coisa não estava certa. Durante um ensaio, não conseguia ficar em pé. Meu colega de trabalho me levou para casa e pensamos que eu só precisava de um descanso. Mas isso não impediu que minha esposa ficasse preocupada. Ela insistiu que eu fosse ao médico, que realizou um ultrassom antes de me diagnosticar com a doença renal policística. Eu nem sabia o que era isso! Meu médico me encaminhou para um nefrologista, que me disse ser um problema genético. O protocolo: verificar anualmente para monitorar a progressão da doença, que mais tarde passou a necessitar de avaliações semestrais.

A princípio, meu nefrologista me assegurou que provavelmente não seria necessário o tratamento até os 50 ou 60 anos. Mas a vida é imprevisível, e acabei precisando de tratamento mais cedo.

Em 2003, entrei na lista de espera para conseguir um doador de rim, e fui informado que nesse meio tempo precisaria de diálise. Também soube que a média de espera por um doador com meu tipo sanguíneo era maior. Eu não estava preocupado com a operação, eu sabia o que esperar, pois meu nefrologista tinha discutido os detalhes comigo, e decidi não me estressar sobre algo que estava fora do meu controle. Eu também relembrava a mim mesmo que uma notificação de que um rim estaria disponível não garantiria o transplante. Diversos elementos precisavam estar alinhados para o nefrologista prosseguir com o transplante.

András Both durante seu programa de rádio

A primeira notificação e cirurgia

Mesmo assim, minha esposa preparou uma mala e a guardou em um armário. Dessa forma, eu estava pronto para ir para o hospital se recebesse a notificação. E, na verdade, isso ocorreu antes de começar a diálise. ‘Bom dia, Sr. Both’, o coordenador disse ao telefone, ‘esta é a sua notificação’. Novamente a vida era imprevisível! Eu tinha uma hora para chegar à clínica. Foi quando comecei a entrar em pânico.

De repente, minha mente estava trabalhando na velocidade da luz. Com quem eu deveria falar? O que eu precisava organizar? Eu tinha que chegar rápido lá, mas eu não sabia se conseguiria o rim! Quando há uma notificação, muitos pacientes são chamados e vários testes são solicitados. No hospital, eles colheram amostras de sangue para encontrar o receptor mais compatível e após cerca de uma hora, eu descobri que aquele rim era meu.

Eu não me recordo exatamente da operação. Eu só sei que doía tudo depois que acordei. Na época, era uma técnica cirúrgica antiga e um tipo de anestesia diferente. Junto com os médicos e enfermeiras, nós testamos se o rim tinha começado a funcionar: sim! Agora eu tinha que esperar por mais três ou quatro dias para ter certeza de que meu corpo tinha aceitado meu novo rim. Quando esse momento chegou, voltei para casa.

Paciente de transplante András Both

Pós-operatório

Três meses depois, as coisas pioraram. Meu nefrologista realizou uma gama de testes e eu recebi uma sonda, uma malha de metal tubular para alargar uma artéria estreita, num vaso sanguíneo próximo ao rim. Por fim, meu rim doado falhou, mas eu ainda o tinha em meu corpo!

Conectado à máquina

Minha primeira visita ao centro de diálise não foi para tratamento. Eu estive lá para uma avaliação e dei uma olhada em volta por curiosidade. Eu queria sair dali o quanto antes. ‘Eu, aqui?’, pensei, ‘eles não podem estar falando sério’! Mas eu sabia que a diálise esperava por mim - e que ela me manteria vivo. Enquanto estava em diálise, eu tentava focar em viver minha vida e fazer as coisas que eu gostava. Nos finais de semana, eu tinha mais liberdade, embora precisasse tomar minha medicação, me alimentar corretamente e monitorar minha ingestão de líquidos.

Nova cirurgia

O chamado para meu segundo rim doado também veio inesperadamente. Mas desta vez eu sabia o que esperar. Percebi o quão importante era ter uma boa relação com meu médico. Ele entendia o que eu queria e eu seguia suas recomendações, o que facilitou o trabalho dele. Claro, também foi necessário um pouco de sorte. Você precisa estar saudável para passar por uma cirurgia - nada de resfriado, gripe ou outras viroses. Eu tive sorte de não estar doente quando recebi a segunda notificação.

 

A segunda cirurgia foi mais fácil, em parte por conta dos avanços dos remédios e técnicas cirúrgicas, e achei a operação mais tranquila. Saber o que esperar facilitou o aspecto psicológico também. Já se passaram três anos desde a cirurgia e faço uma avaliação a cada seis meses.

Paciente de transplante András Both após a cirurgia

Vida familiar – as regras da honestidade

Muitas pessoas têm questionado como minha família lidou com minha jornada pessoal. Eu sou um grande defensor da honestidade, então, falei abertamente com todos - incluindo meus filhos, desde o princípio. Ao me visitarem durante a diálise, eles tiveram uma ideia clara dessa nova etapa da minha vida. Quando eu descobri que meu rim doado não estava funcionando, não deixamos a situação arruinar nossas vidas. Nós ainda fomos passear e viajamos, mesmo que isso exigisse um melhor planejamento.

Uma pessoa com transplante é mais saudável?

Desde o transplante, eu me tornei mais consciente sobre a minha saúde. Meu sistema imunológico é mais frágil devido aos remédios contra rejeição, então, preciso cuidar de mim.

 

Sigo minha prescrição médica e converso com meu médico sobre tudo. Quando viajo, faço uma checagem para ter certeza de que tenho a quantidade suficiente de medicação. Tirando esse fator, vivo a mesma vida que qualquer outra pessoa, apenas com um pouco mais de cuidado e consciência”.

Paciente de transplante András Both e sua esposa